domingo, 3 de janeiro de 2010

amor, queridos, amor...


para o próximo ano, quero suor afetivo.

na comunhão de poros e pele, e pêlos e carne, tudo o que nos resta é a afetividade sincera do suor em uma amálgama de pureza no corpo aqui com a pele dali, tudo uma coisa só dentro de várias, e como isso é mágico! minha pele pela do outro. para duas almas, um único suor. e a gente não é bobo de ignorar que esse lance de duas almas (uma aqui, outra ali) vai por água abaixo quando o suor cria o pacto afetivo-espiritual do amor. tudo é uno.

unidade na alma, então.
e suor afetivo aqui e ali.

pra 2010, mais pessoas suando por amor, menos suando por uma necessidade inventada (esse suor, todos sabem, fede).

amor, queridos, amor...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

o prazer e o pacto nas chuvas


se um dia o mundo imaginar
que corpo é porta pra vida
lembre-o que tudo alucina
tudo vacila ao olhar pra cima
o céu nunca foi ponte nem chave
sempre foi verbo
e verbo não se conjuga com o olhar
e sim com toque simbiose
de poros em transe
por isso corpo transmuta pactos
o corpo nunca é
tampouco está

o corpo se pactua com tudo que resvala afeto

e o verbo céu
é total figura fundo
para o suor de nuvens
que transam tempestade

chova comigo
até que lampejo e gozo
sejam eletricidade de sons
e atravessem todas as vidas na cidade
alagando as ruas de qualquer estômago desatento
engendrando blecaute em olhares mancos

raiorgasmo pureza primal

corpos sempre pactuaram nuvens que transam chuva

sábado, 26 de dezembro de 2009

loucura, presente.

Hieronymus Bosch, Nau dos loucos 1490-1500

hoje viverei o presente
pois sei que
sem a loucura universal,
sou palha e fogo querendo
se encontrar

enquando sou louco
sou perfeito,
sou presente.

e o queimar-se é sempre futuro.
qualquer chama é futuro,
não existe presente
no ardor sempre mutante do fogo


abraço a loucura de todos os tempos
pois ela é o presente

é alma planetária em desvario
é chama a esperar eternamente seu próprio devir
é um aspirar-se fogo
nunca o sendo de fato
é o estar sempre em suspensão

ela é o decorrer eterno da queda profunda
no abismo da alma
cujo chão é mera vaidade
por isso se faz tão firme
rente ao espelho total

vaidoso chão imaginário
de alma sedutora e envolvente

alma louca que se fogo fosse
futuro seria
e futuro não existe nos jardins da loucura
mas é presente
num alucinado gozo incendiário.

na loucura
tudo é presente
tudo aguarda ser chama
e nunca a será
pois a certeza
da loucura
é a de que o futuro
morrerá


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

porvir saudade


uma folha,
em seu carinho com a chuva
homenageia o mundo
no reluzir embriagante
da gota d'orvalho

você,
com seu sorriso de música universal
exagera o mundo
na suavidade d'uma lágrima
condão da saudade
ainda não vivida.

saudoso futuro
latente presente
no desperdir-se.

gota:
lágrima orvalhada.

espero-te.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Encantado

Arnaldo Baptista*

sou
eterna
parafina
decantada
próxima
as
chamas
do
firmamento

*O site do Arnaldo não me informou o nome e o ano dessa lóki arte

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

pairar então

Marc Chagall, Enchantment Vesperal


tropecei dia desses
numa flor
manca

momento duro

ela se inclinou
em direção ao tempo

e ao tentar beber
a voracidade de um crepúsculo,
engasgou-se
com a ávida sensação
do horizonte de mundo todo

porém

quando se vive
com um sol que arde n'alma,
não há dor que não engendre raios
tampouco lágrimas que não adubem
terra
____em nosso
____________espectro

e esse sim,
sente o gosto afável
de flor que está
sempre prestes
a levitar.

pairemos,
pois.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

vontade dos astros

Eric Fischl, "The travel of romance: scene V", 1994


qualquer sombra é luz

desde que se saiba
que ela é o verbo
da tessitura dos astros
que cortam e atravessam
nosso corpo,
deixando ali plantada,
uma luz

jogando-se então no chão
com tudo o que lhes sombra.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

despedacem-no


meu coração é um espelho
poucos conseguem encará-lo

os que conseguem, sofrem a sós

é realmente duro olhar ali
e ver sua própria bomba sangüinária refletida
na de outrem

os lados se invertem,
sentimento sempre foi esquerdo
como pode agora ser direito?

quisera eu uma alma corajosa
encarasse sete anos de azar

talvez assim
meu mundo inteiro
fosse muito mais esquerdo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

olha o passarinho


já tentou fotografar
uma lágrima
que ainda não caiu?

ela não é liqüida

é puro afã
de rima que não
se sabe rima

por isso
se desafina

e fotogênica,
__________mata o passarinho.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

permanente


és perna
és permeável

esperas
esperma

ex-perma és feto





*poesinha (des)conjunta com carlos silva (avelino, luís)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

transacidental

onde o nada se volta pra si

evadir-se de sim
para chegar
ao ponto
que
é

não

tudo transa
enquanto nada sim

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

intensidade afetiva dos pés quando sinceros


inverta a lógica afetiva
da ordem mundana

ânus pro céu
e cabeça pro chão

pronto

agora todas as cabeças
são uma só:
o mundo

e pés aéreos
brincam de flutuar as nuvens
regendo a ordem imaginária
das chuvas

sim,
quando se brinca de chuva
não há corpo que não molhe a imaginação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Printscreen


Muito do pouco que sei sobre Nietszche veio de amigos, acho que o suficiente para tornar esta captura via printscreen um tanto curiosa (clique para ampliá-la):


Aqui vai um link interessante de um programa de radio daUFMG do curso de filosofia, por sinal uma bela iniciativa: http://www.fafich.ufmg.br/petfilosofia/logofonia/filosofia-e-sociedade/a-filosofia-da-religiao-de-nietzsche/



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por um novo paradigma

No caminho de terra
mora o morro
a safra marrom
de compaixão, fonte.

No caminho de homem
mora o seio materno,
tenro, doce,
de leite morno.

No meio do povo
a unha cava o lodo,
a poeira que levanta o novo.

Tem que acreditar,
deixar de lado o limo,
por um paradigma em que
Eu sinto,e tão logo nós coexistimos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sim, a jambolada é isso.


sabe a ressaca do que não se bebeu? isso acontece quando ao invés de beber, se traga e se é tragado. tragar o quê?

sim.

há alguns finais de semana que abrem aquele rasgo da distorção espaço-barra-tempo e o que era grama vira lama, mas o que é mais impressionante é que a grama que cresce depois, cresce da cor dos olhos de quem a pisou. sim, foi assim que a grama que não existia na acrópole da jambolada cresceu hoje, da cor de sete mil olhos que disseram embevecidos, que sem música, não há ar.

essa teoria é antiga, tem gente que pensa que a música só consegue se ecoar pois o ar permite tal façanha com as vibrações e reverberações sonoras abraçando toda aquela lenga lenga de composição química que há no ar, mas isso não passa de um postulado rigidamente estabelecido e pouco questionado e discutido. o que acontece de fato, é que quando o big bang fez seu grande BANG, o ar foi obrigado a existir saindo com pressa de dentro daquela entidade em potência que era o tal estampido do baque sonoro primordial. e desde então respiramos o ar que existe graças a esse primeiro som. ar e som, som e ar...

antes do ovo e da galinha, há a dialética. portanto, escutamos e respiramos. sacou?

saquê!

e essa é a única história de casamento feliz que eu conheço até hoje, o ar e o som, dois hermafroditas que transam com tudo, nada de monogamia, amor-livre antes de 68 e com muito 69.

por isso esse fim de semana todos respiraram uníssonos, e o que era música tragou cada corpo ali presente, nos tossindo com uma leveza extra sensitiva e lançando-nos de volta para as próximas segundas-feiras que virão. e nós continuamos aqui tentando tragar tudo isso, com uma tosse que ainda não chega nem a ser pigarro, mas se situa na vibração da corda vocal de um brônquio (sim, eles cantam também, por isso tossimos). uma tosse que ainda não se sente, só existe, sem pretensões de se tossir. e isso já é muito mais que o suficiente.

apague a luz, feche os olhos, respire fundo e segure. se vc esteve na jambolada, com certeza escutará a luz dessa grama cor de olhos crescendo por lá com toda sua tosse...

sim, a jambolada é isso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

São

O olho do furacão investe aos olhos de quem o vê,
ar com ar e velocidade, força.
centrifugação expansiva e contida,
etílico, sublima
no osso, assina
um lampejo de fúria, o desabafo.
os diques estremecerão, certamente.

O espirro do universo,
um simples grão,
aventurada escalada de uma legião,
no olho de quem vê este meu lindo nosso furacão.

sábado, 17 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

memórias


agora febril
com a cabeça tateando
chamas no ar

amanhã ressaca
de um dia
que não aconteceu

mais vale a inércia
de uma sinapse inacabada
que a memória
do não vivido.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

traço incidental


sabe quando...

em uma extremidade
de um fio
uma formiguinha plenitude
grávida de apetite
puxa para si
no outro extremo do fio
uma humanidade doente
grávida de fome?

então...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

sensativo

Yves Klein, "Salto no vazio" 1960

para bibi



acusaram-no de
desertor de si mesmo

mas antes de seu julgamento
evadiu-se vento

e tudo que era fato
invaginou-se tato

tudo
basta só
livre prender-se
em sensações.