terça-feira, 11 de janeiro de 2011
segredos
joguei minha cabeça no fundo da gaveta
cantei alto como nunca na vida
sempre quis musicar
o que fica aqui dentro
guardado
sábado, 8 de janeiro de 2011
pequenas belezas, ou sutilezas
*para ler escutando um girassol da cor do seu cabelo do lô no clube da esquina
e teve aquele dia
que você descobriu pela primeira vez que os girassóis
sempre estão a olhar para o sol
sabe,
às vezes essas sutilezas germinam vozes
dessas que saem de lá de dentro do mais inóspito pisar
na alma
voz visceral delirar,
com o coração pulsando firme na garganta
e como é lindo embriagar-se disso tudo
braços abertos ao pular das pontes só pra sentir o vento
sorrindo
as lembranças também estão sempre a olhar para o sol
e durante a noite elas vivem aquele denso pacto mudo de serem solitárias
mas eu sempre soube,
um girassol cabisbaixo esperando o dia raiar é pura vida
há potência ali abraçando o ar com as mais poderosas verdades
vociferando pro mundo tudo sobre o futuro
há que se prescrever pequenas belezas
os girassóis sabem disso
são nessas madrugadas
onde o dia ainda titubeia nas linhas das horas
e o pensamento vagueia inerte nos tictacs imaginários
é que está o segredo
do amor
o amor é sempre sozinho
alucinando paixão à dois
o amor é sempre à dois
apaixonando-se juntos numa simbiose nua
por verdades tão plenas logo ali no paraíso
que já escapam rápidas nas brechas do piscar os olhos
ah!
se não fosse a eternidade fugidia
desse intenso segundo antes do piscar (lá onde vive o sol)
ninguém amaria...
domingo, 26 de dezembro de 2010
o fim é um cara
o fim se destrincha imponente
carregando o peso do mundo consigo
desfilando provocativo
olhando nos olhos com avidez de pássaro caçando
pescando em cada olhar que vive
todas as lágrimas ainda não caídas
e bebendo-as até se embriagar de excesso de fins
no fim de tudo
o fim não passa
de um bêbado gritando na madrugada
clamando pra si todas as dores choradas
todas as dores vividas
nos quartos, nas noites, no fundo do copo
no silêncio do peito que grita
no imenso outro que há em todos nós
o fim
se sentiu caindo eternamente
e aquele vento nos cabelos
tranbordando durações de incessante queda
era seu único suporte
mas desgrenhou todas as idéias
e
foi
o
fim
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
salivação
a leveza
de uma tonelada
de vapor de chuva
pairando sobre minha cabeça
produzindo poesias silenciosas
é a solidão que estica exageros
até que a cabeça chova toda
paredes falam muito
às vezes até
caem
e não há telhado
que não deixe escapar
o silêncio do suspirar
a sós
na ponta da língua alguns rastros,
a saliva das lembranças recebeu um denso nome:
madrugada
intempestiva tempestade pela metade
solidão é sempre inteira pela metade
domingo, 19 de dezembro de 2010
meus amigos
meus amigos corromperam minhas idéias
minha forma de pensar
sacudiram meu corpo até esquecer-me que tenho de fato um corpo
me livraram de moralismos e verdades prontas com lambidas públicas nada pudicas
chocaram todos ao redor com canções inusitadas
sobre a beleza da embriaguês mergulhada na mais densa e nada pura nudez
meus amigos foram meus melhores inimigos
advogaram pelo diabo sempre que estive por cima
só pra me colocarem por baixo
lá em baixo chafurdamos juntos como crianças no barro
quando voltamos à realidade, já embriagados de terra,
derrubamos paredes, assassinamos professores, apertamos campanhias
e não corremos
gritamos de corações atados nossos crimes para o mundo inteiro ouvir
e ganhamos forças
meus amigos me ensinaram a ser contraventor em dias de chuva
queimando guarda-chuvas em praça pública só para que nessas chamas, pudéssemos acender cigarros
e apagá-los logo em seguida, nas gotas que do céu caíam
desapego bobo, mas sabíamos pela solidez da fumaça se esvaindo, a perenidade das coisas
em dias de sol, andávamos nus pelos corredores da faculdade
olhando densamente nos olhos de cada olhar dirigido a nós
ninguém jamais acreditou em mim e em meus amigos
nós também nunca acreditamos em nós mesmos
aliás, nunca paramos pra pensar sobre isso
nunca fomos coerentes, a incoerência sempre frutificou mais possibilidades e dúvidas
e daí pra frente todo o futuro nos tecia teias de surpresa, extremos delírios lindos à ceu aberto
não tinhámos certeza de nada, mas sabíamos algo sobre o tudo
certo dia, nos perguntaram se conseguiríamos levar a vida a sério
olhamos silenciosamente um pro outro, todos já sabíamos de antemão a resposta
e o melhor a ser feito, era jamais responder pergunta tão disparatada
cada amigo meu
sempre foi meu melhor amigo
e, libertários ao extremo, esquizofrenizaram belas coreografias de dança em palcos escuros
só para provar que os melhores públicos, são públicos imaginários
meus amigos me ensinaram o que é o amor
praticamos o amor livre, o amor doentio, um amor apegado, outro desapegado, amores solitários, amores silenciosos...
percebemos então que a rima com a dor pulsará sempre em todos eles
foi quando pixamos nos muros da cidade que todos os amores são um só: o amor
meus amigos são o amor
eu sempre sou meus amigos
e o amor sempre será o mundo
nos abraçamos todos não foi à toa,
o dia será de fato,
muito mais ensolarado
com sombras boas
e vento no rosto
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
o nó, ou nós
agora foi
olho pra trás e vejo o futuro
afiando seus dentes
pra derradeira mordida apocalíptica
mas nem tanto
olho pra frente
e as asas em chamas do horizonte
insistem em escapar pelos dedos do mundo
coisa grande assim
exige rastros
a sombra do cosmos se esticando
até tocarem as testas desatentas
de um sonhador aqui
um poeta acolá
amarrados juntos-distantes pelo nó da luz da manhã
eu
nós
no raiar do dia
uma canção
a sala de espera da vida
canta
lotada de futuros
fica no ar a verdade
solidificada num delicado bailar
de uma corda
aguardando ansiosa
alguns nós
eu
nós
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
algum lugar bem próximo
circulando pela autopista multicolorida
de minhas pirações matutinas
no limiar do acordar
não me atrevi a abrir os olhos
pesquei algumas idéias
que brincavam com o estepe dos vazios da alma
sabe o que disseram?
coma fruta madura com os pés na terra
as unhas devem ter barro incrustado
nada de preocupação com limpeza
a terra nunca foi sujeira
é néctar denso, suave pisar
a pureza de uma poesia não pensada
embriagou-me com palavras poucas
tão leves, evaporaram na memória
ainda de olhos fechados
preparei a matula
e saí
dormi
e nunca mais voltei
desmemoriado
sem destino
e sorrindo muito
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
suave pouso
os olhares
são todas as cores do mundo reunidas
implorando para serem pintadas
em telas que são
corpos, paisagens, pensamentos
pintam como comida quente cheirando a casa inteira
e o piscar
foi bela invenção da alma
para que nessas pinturas
nunca faltasse
nenhuma gota
de amor
quando pisca
o olho altera a relação tinta-tela
momento de hesitação catártica
como a criança correndo no parque
tão veloz
nem percebe o tropeço e a queda
só há o roxo da perna
e o suave acalanto dos pais
tão veloz que já dorme
e sonha
é naquele delicado instante de hesitação
antes da queda, quando se pisca
que amores se bordeam
e as cores se exaltam
o casal se despede
deixando um no outro
suas mãos
apenas com um olhar
eterno, imenso
indo embora
cada um para um lado
juntos no sem fim
a paisagem parece enfim desenhada
tudo é contemplação
um suspiro recheia o ar com leve admiração
alguém pisca
e as
cores se
trans
bordam
a tela
ganha
vida
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
coro
pescando conchas de pensamentos arremessados no espelho
o mar se abriu inteiro ali em frente
parecia até moisés abrindo o mar vermelho
mas era um espelho
e a tendência a vibrar indistintamente
mar
e espelho
só pode dar em música,
tão úmida ela
que já tem pretensão
a choro
de corpo todo rente à imagem especular
é lindo espetáculo esse oceano som
sorrindo ondas de arrebate infinito
um suor danado
salgando o choro na mesa do olho
e uns acordes mergulhados no ar
procurando coro
sábado, 20 de novembro de 2010
na lixeira
quando a fúria de um monstro me tomou por invisível
sumi
até hoje não me encontrei
rastros de sangue no ar
em viscosa rarefação
dão algumas pistas do paradeiro
abrem sensitivas portas
densas e de bruta atividade
contudo caminhos começam
a percorrer meu corpo
o difícil é respirar este ar
rarefeito sangue
mas respirar assim
tem sido trabalhar
um olhar tato nas coisas
nesse olhar,
perdi o monstro de vista
ou de vida
talvez ali ele me encontre
e daí eu me perco de vez
achando por fim
um outro
eu
ou
tro
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
cheiro quente de café nas manhãs
o dia passou o dia aqui
me transbordando de agoras
o anoitecer trouxe alguns ontens
costurei idéias no horizonte
como quem fixa pensamentos
em suavidades de lua toda força
luz prateada recheando o ar de eletricidade
o dia amanhacerá eus
os sóis das manhãs
e suas tendências
a me serem alma cheia
já me transbordam muitos amanhãs
tudo o que passa fica
nesse corpo que ora pretende
ser ele próprio estrada, ponte, construção
pego o volante e entorto a estrada
luz também faz curva
sábado, 6 de novembro de 2010
vez em quando
sou simples
a vida também
nós juntos
é que nos complicamos
muitos caminhos
até que se ache
um bem
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
poderia
correndo na chuva
coração em mãos
cigarro molhado na orelha tentando me fumar
acendi duas velas me abrigando em uma marquise
as pessoas passavam
até que um cachorro parou
e dançamos juntos como quem não se preocupa com nada
as velas se apagaram
e todos como num choque decisivo de compreensão imediata
dançaram uns com os outros
despiram-se todos os pecados do mundo
a chuva transbordava sensações quentes
canalizadas em todos os poros que ali se debatiam em frenesi
nossas animalidades:
na vida não há maior sinceridade
no cálido abraço entre nosso caos interno
e as tensões inocentes que nos pintam do lado de fora
somos mais vivos
mais primais até que os pêlos eriçados desse mundo cão
amanhã pela manhã
meu uivo vai se acasalar com os raios solares
filhos bichos de luz
nunca mais irão trabalhar
falam por aí sobre uma desumanização geral da vida
nos humanizemos então
mas que seja
sendo os mais densos animais gritando na chuva
lindas novidades
rasgarão o ar com cores impensadas
os bebês darão seus primeiros sorrisos
micro explosões de flores em nossos corações nos dirão algo
um som elegante de pele suada ficará no ar
e enfim
um silêncio
o silêncio
domingo, 31 de outubro de 2010
barulhinho no escuro
quero poesia estranho corredor escuro
que corre em veias mortas de tanta vida
vez em quando um potente som abafado
pinta de paixão as cores de uma poesia
caminhar nesses corredores
faz cócegas nas almas dos homens mortos
derruba suas paredes de ferro medo hesitação
vamos gritar para todos os pássaros
os desejos lascivos mais humanos possíveis
no ritmo extasiante de todos os corações
tambores desses tempos mais findos que vindos
que se libertem em glória
todas as solidões que mentem caladas
as dores desses mundos farfalhando em chamas
poesia é gozo ambicioso querendo respirar
abre portas janelas telhados cabeças corpos e paisagens
até que neles,
more a mais rasgada fonte sensitiva
presente no mais simples encontro explosão
lágrima que se arrebenta no chão
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
um nó, ou vários
me chame de qualquer coisa
meu nome hoje é o mundo
talvez eu seja de fato
o sempre o tudo e o nada
ou talvez eu seja apenas um não
só não me venha com sins
pois hoje quero me obrigar ao novo
abrir as pernas dos nãos
e procriar idéias de subsolo em atmosferas ferozes
só os nãos podem germinar o novo
quero criar quero poder quero inventar
o nunca inventado já é ultrapassado
o impossível faz tempo mora em meu coração
o que eu quero
está brincando com o impensável
não o sinto nem o falo
não está em minha imaginação
o que eu quero não é o bastante
e isso já é o bastante
mas já está perecendo
algo está por vir
abram as portas e venham ver
o que mora aqui
não está mais em ninguém
o que mora aqui
é verbo imperfeito deixando de ser passado
o que mora aqui
não está mais em casa
mas há alguns nós
quando cheguei não havia mais ninguém
só uma janela aberta
e o vento
em nós
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
acaso
hoje vou beber descaso
construir pontes ociosas
e admirá-las de longe
ninguém vai cruzar nada
ela estará lá como obra
des-casual
eu
des-calço
meus pés regem
orquestras de pensamentos, nuvens e roupas no chão
conforme passo, fico
se fico, me banho
com os pés brincando de tecer destinos
sou mais vivo
nossas mãos agem demais
forjam seguranças pensadas
esquecem de escapar
os pés simplesmente esquecem
e nas pontes paradas
são o próprio caminho inventado
vez em quando, pulado
voos infinitos
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
poesia cuspe
um pé descalço no chute do destino
e o mundo nunca mais será o mesmo
duas alavancas tortas feitas de vontades mortas
e a vida sempre será uma icógnita
ah, mas eu não falo de mim
falo de você e do mundo e do absurdo
sempre que reparo no som da tv desligada
corro rápido pro quarto
abro um livro, cuspo lá dentro e fecho
o último eu joguei pela janela
e matei duas pessoas mortas
tenho essa vocação a coveiro pentelho
desde que meu coração matou Poe
não consigo deixar os mortos em paz
buscaram meu cuspe nas esquinas mais insuspeitas
e o que acharam foram livros já mofados
com cheiro de fruta podre mordida
fui eu quem mordi
e desde então, o mundo nunca mais saiu de mim
fica aqui grudado lapidando meus sonhos
com energia eólica dos deuses
com duas pedradas na pele grossa do impossível
engravidei as virgens de mim mesmo
agora meus filhos dançam em torpor
nas filas imaginárias dos ônibus nossos de cada dia
são contraventores hábeis,
cospem sempre pra cima
nunca viram nada de grave
na laminação ativa da gravidade
os cuspes dos meus filhos já alcançam o teto
e eu me sinto lá
estalactite viva
soprando doces terrorismos poéticos
nas orelhas pretas de brita
que tanto pisamos tateando futuros
as poesias
coçam nossas dúvidas jogadas e anestesiadas na sarjeta
depois saem
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
tão simples
uma demanda esquizo bagunça meus cabelos
chuto o ar com algumas invenções silenciosas:
minha barba anseia em coçar o pescoço do mundo em um abraço;
grito sempre que vejo fogo, talvez minha voz queira se queimar;
o calor de um amargo café em meu estômago pede para não ser digerido;
talvez meus pés ainda parem de esticar amores aos barros a às lamas e se tornem firmes, talvez não;
as gavetas da minha memória estão tão abertas, que se esqueceram se são gavetas mesmo, ou se é só imaginação;
meus poros se uniram em gemidos coletivos múltiplos: pêlos;
alguns amores atravessaram meus corações e foram morar em meus olhos: lágrimas;
quando criança, cresci até não caber mais em mim, aí nadei no ar com asas;
hoje, se olho pro lado, não sou mais eu, e se me olham, sou o outro;
talvez um dia eu volte pra casa, ou talvez me reinvente até que esta, possa enfim, morar em mim.
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