sábado, 21 de agosto de 2010
esse mundos
nos jardins imaginários
de nossas ansiosas mãos
que esperam por impensáveis dádivas
é que estão as verdades
desse mundo
e daquele outro
que só conhece
quem se deixa embriagar
pelo felpudo bailado das nuvens
vida cor e poesia
se permita ser azul pelas manhãs
amarelar-se sol no fim da tarde
e comungar o brilho noturno
com liberdade de mil aves
a migrar pras Pasárgadas de nossas sensações
aí esses jardins nos habitarão
e a liberdade força bruta
de ser corpo casa dos jardins do mundo
é de tamanha intensidade
que somente os céus, em silêncio,
poderão nos dizer
encantos
em cantos
sábado, 7 de agosto de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
em coma
sou um filósofo
dos tempos poéticos do caos
todo dia
rasgo páginas
de livros
vou pra rua
e as ofereço à vira-latas famintos
não sei nada
sobre saciedade
mas até hoje
nunca comeram
minhas páginas
então as colo
em postes
e escrevo:
procura-se alguém faminto
talvez alguém leia
na melhor,
coma
sábado, 24 de julho de 2010
doce horizonte
ela lá
brincando em leve torpor
de se misturar
com o céu
eu aqui
brincando com seriedade
de me fundir
com a terra
distantes
que só
e sós
até que veio
o horizonte
em sua infinita maestria
e nos beijou
quinta-feira, 22 de julho de 2010
gritar para o espelho
entre as quatro paredes da vida
cada movimento
por mais delicado que seja
revoluciona o cosmos
soterra medos
ou os rasga com clareza para o mundo
espanta tédios
ou os faz vivos em cheiro na carne
agita os sabores
explodindo-os em pingos de êxtase
a colorir corpos ao redor
mas vez em quando
há um arrebate no caos
dos incompreendidos dissabores
sereno cuidado nessas horas
nesses movimentos
brincadeiras com os desejos
surpreendem mais
que sorrisos sem pretensão
- e olhe que esses já surpreenderam tanto... -
respire com cautela
mas sem medo
sinta o vapor de sol
na nuca
nunca se vire,
sinta
apenas
os raios
soarão como mãos em doce amparar
um alento quente
nas horas desfiadas do sangue nosso de cada dia
sábado, 17 de julho de 2010
a sorte está queimada
e fez-se fogo
o salão inteiro
incendiado
aqueles corpos
se jogando nas mesas
as bocas se entrecortando ruidosamente
por entre os garfos
facas
os cortes confusos
se esticando nas labaredas de nossos
temores
nada em frenesi
tudo em frenesi
e a voz universal
de todos os nossos atônitos santos
brada em fervor:
- Existir é brincadeirinha
de luz fogo amor
a se extasiar
em danças rituais
sobre nossas
cabeças hesitantes!
quarta-feira, 14 de julho de 2010
parto natural
fiz um filho
em mim mesmo
batizei-o
com um grito
todos
ao pronunciarem seu nome
dançam ao bailado dos ventos
num carinhoso transe
vibrante
ao redor
sons orgânicos abrindo frestas
onde só há concreto
esse filho
já é pai
subverteu-se deus
por conta própria
na falta de materialidade divina
resolveu-se deus
dignificando-se nada
hoje
desprendeu-se dos enganos
das dúvidas corpóreas
ou daquelas distrações forjadas
agora
é só
som
e
grita
livre
sábado, 10 de julho de 2010
brilhante
as estrelas são feitas de papel
moram no coração da gente
e foram feitas por crianças
que são ninguém mais
ninguém menos
que nós mesmos
antes de descobrirmos
que o sorriso
pode ser
de plástico
não nos rasguemos mais
nos permitamos brilhar
apenas
sexta-feira, 2 de julho de 2010
magnus opus
sou um godard tropicalista
nadando nu
no piscinão de ramos
criando conceitos
sobre
arrepiar os pêlos
facas cegas nas laranjas
e pigarros reprimidos em sala de aula
meu grande sucesso
bóia há três dias
numa privada
em plena praça pública
um feitiço excitado
sabotou a companhia d'água
gozação danada
sem descarga
uma população inteira
presta solidariedades
ao fétido monumento
à vibrar odores na praça
e eu voando
junto aos patos brancos
do jardim botânico
invisível
quarta-feira, 30 de junho de 2010
num piscar de olhos
agora que meus olhos
não sabem mais
se o tempo
do sol
é tempo mesmo
ou se tudo não passa
de saborosa sensação
de lua cheia
em meu estômago
saciado luar
brilho a cada momento
por via das dúvidas
mais vale um voo
despretencioso suave
na janela de cada
segundo
para admirar
a paisagem do tempo
com amor e
sem precisão
tempo é
sempre cisão
nunca
preciso
desapego livre fluxo
e muitos frutos
não sabem mais
se o tempo
do sol
é tempo mesmo
ou se tudo não passa
de saborosa sensação
de lua cheia
em meu estômago
saciado luar
brilho a cada momento
por via das dúvidas
mais vale um voo
despretencioso suave
na janela de cada
segundo
para admirar
a paisagem do tempo
com amor e
sem precisão
tempo é
sempre cisão
nunca
preciso
desapego livre fluxo
e muitos frutos
segunda-feira, 28 de junho de 2010
curta metragem
depois da meia noite
escrever deixa de ser um ato
e passa a ser cena
sem ensaio
personagens desempenham
as dúvidas da caneta
as falhas da tinta azul
incertezas sutis de mãos viris
estirados na cama
amassam seus papéis
jogando-se contra a parede
para analisar
os próprios borrões
lençol ali faz motim em frenesi
e já suado de tanta fricção
se confude com os pêlos
do corpo que ora o habita
não há insônia
cada bocejo é um rasgo
que se abre para gracejos
de vácuo no tempo
e os pés pelas cobertas
encenando travessias
e forjando cheiros
travesseiros
piada travessa
pois na ilha de edição dos sonhos
toda a equipe de produção
está de brincadeira
travesseiro é nuvem de penas
desaguando sonhos penados desencarnados
da cabeça em riste repouso
transe d'uma noite só
transa bilateral imaginária
papel caneta gozo azul
quarta-feira, 23 de junho de 2010
sorria
se a loucura bate à porta
abra-a
receba-a com carinho
ofereça a ela aguardente boa
arda
se arder deixe-a voar
sua sala pode não suportar o voo
abra o telhado
deixe o céu entrar também
quanto mais, melhor
se o céu loucura vida
indiferenciarem-se
abra agora sua cabeça
sim,
é necessário um pouco de ar
talvez até uma ventania
para tirar o pó que se acumula
debaixo de tantos telhados
já de consciência limpa
abra o peito
com faca imaginária
ou afeto suave de doce lembrança
ali está a verdade
sem pó
nem telhado
com muito céu loucura vida
sol luz mato desejo tesão
e ali pode ser que o casamento dê certo
um pouco de abrigo
um sono confortável
muita luz e calor, pro frio se sentir a vontade
aquele amor na comida boa
e vez em sempre
um voo-livre:
risada
a vida é uma piada
aguardente boa
segunda-feira, 21 de junho de 2010
poeminha cigarro violento aceso
o cigarro e a memória
se casaram numa cerimônia fúnebre
a fumaça esquenta os grãos
dos poros na garganta à esquecer-se
tudo que é viável
torna-se brasa rasgada ao vento
numa violência suave cantiga de ninar
e memórias dormem entorpecidas
sim,
não há memória nesse casamento
o cigarro é a tônica da relação
as brasas jogam tensões
anseios e pudores
aos céus
e tudo que se esquenta
é esquecimento
esqueça de tudo
o que falei
lembre-se somente
do que esqueci de falar
e saia
talvez vire fumaça
ou talvez
fume
quarta-feira, 16 de junho de 2010
fogo só
noite inteira
embate solitário
no longuíssimo espaço
do quarto
apertado
brincando de pirofagia imaginária
com os lábios incendiários
de seus pensamentos
até que
queimou a lâmpada
aí
dormiu
quem
te
sonho
sábado, 12 de junho de 2010
Bárbara
o que falar se te vejo
tecendo palavras música
tão afinadas elas
esquentando cama como quem
faz durações suaves
momentos ternos
vivência eterna
nunca igual
sem
pre
co
meço
de lá você nós aqui
tudo ao lado sempre
junto todo em frente
n'olhar instante eterno
ficaquintensa
sempre
segunda-feira, 7 de junho de 2010
bela lua
amanheceu
escancarou peito inteiro
frente ao sol
rasga tudo
todo nu
seu cor
po se
pôs
fez
-
se
lua
escancarou peito inteiro
frente ao sol
rasga tudo
todo nu
seu cor
po se
pôs
fez
-
se
lua
inteira
nua
sexta-feira, 28 de maio de 2010
atalhos
as palavras não existem
são no máximo
entretempos eternos
dos vácuos que há
entre
o sentir
o pensar
e
o
f
_a
__l
___a
____r
quinta-feira, 13 de maio de 2010
sol
crio atmosferas de vida
como quem tece nuvens
a espera de chuvas
não faço isso por vontade própria
meus dedos são asas
e nunca aceitaram pousar em algo
sem se deliciarem
com os dias
e os néctares de seus poros
os dias se arrebentam
e as janelas da noite
escancaram-se
para sóis
que nunca
desapontam
nossas cores
amarelas
tão cálidas
elas
já desenham
amor em sombras
sábado, 8 de maio de 2010
à vontade
caminho de esquiva
em meu terreno esquizo
só pra sacanear
meus monstros
olho-os
em cada olho
e subo
na esquina de todo coração
os postes de luz
palpitam cor de ferro
bons condutores de calor
e de um pouco de louvor:
fé que se esquenta é sempre verdade
e traz em si a potência da vontade
afinal,
com vontades não se brinca
e as bandeiras frementes
encostadas ansiosas
em meus pêlos
descem seus mastros
minha carne grita
a pele toda estendeu
seu forro de sonhos
no gramado de meus pensamentos
agora é a hora:
a dobra de minhas vontades
se desdobra em suaves afagos
em minha própria sombra confusa
sou por
não sou onde
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Cartas
o que nós vemos de nós
são as próprias coisas
e elas não existem
tudo é idéia livre
fluxo fruto de suspiros
e olhares que de maresia,
já são maremotos
não,
não quero olhar algo
e vê-lo
quero ver amor
dentro de cada coisa
como se o mar ali dentro
se arrastasse em alvorada
e tudo fosse tão sincero
como a criança
a descobrir que todo dia
o sol amanhecerá seus sonhos
isso é amor
e o resto é nadar de braçadas
livre fluxo fruto
da vida em poesia
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