segunda-feira, 28 de setembro de 2009

aero plano

René Magritte, "The Great Family" 1963


quanto menos se espera,
mais se gaivota

e a vida voo
de parábolas e paródias

uma sapiência
nada

ar
é água.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cada gota

Primeiro, a maior felicidade é a de estar triste.
Segundo, a de saber que o novo pode renascer em cada gota:
de chuva,
de lágrima,
de suor,
de vapor,
de cheiro.
A gota do próximo milisegundo, ou, antes deste, você mesmo.

E junto disso, o terceiro.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

meu ovo tântrico

Tarsila do Amaral, "O Ovo ou Urutu"


nunca esquecerei o dia em que botei meu ovo tântrico. a princípio, ele era o princípio, antes nada principiava potência, só havia possibilidades, e essas não eram lá tão impossíveis. o ovo trouxe o impossível e isso é o que importa.

a princípio ele era o princípio, e ficou ali envolto de liqüido amniótico espalhado pelo chão. meu corpo não esperava um ovo, mas ouvi de fonte genital segura que a origem era tântrica. a memória nos prega peças, o transe tântrico não me dava certeza de nada, só de tudo, por isso nada se lembrava, só se acoplava e isso já era o suficiente. nada como o movimento. como o nada em movimento. deglutir o nada para criar seu filho, o ovo.

e ele o tempo todo tantra, em partos tão sinceros que qualquer corpo parecia pouco, parecia parco, parvo. exalava intensidades para todos os lados, sem nenhum viés, acasalando-se com tudo para dialogar com nada. tantra é antes, tudo que tantra devém. o ovo tantra para o excesso ideal, aquele excesso tão procurado e nunca achado por sempre se perder no exagero.

tive que levá-lo até uma árvore próxima para que ela o chocasse, afinal vegetais sabem caminhar com o vento, e o ser humano se suicidou com ponteiros encravados nos pulsos. mas ao chegar lá ficou claro, chocá-lo seria ultrajante, a árvore argumentou tudo extaticamente: para o ovo, tudo de êxtase, nada de ênfase.

sem ênfase alguma, o ovo se tornou sua própria casca extasiando-se tantra para todos os lados, pois a princípio, ele era o princípio. e isso é o que importa.




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

tanta cor


as quatro estações
_____ao pousarem num corpo
se desdobram em pele

por isso
_____os poros são
flores

no calor,
_____pululam orvalho
com o pacto
_____das nuvens

na solidão
_____murcham os raios
da lua
_____dos olhos

lábios em flores,
_____transgridem o pólen
amarfanhando o ar
_____com lampejos
de asas
_____em gozo primal

quisera eu chegasse o dia
que ao invés de devir flores,
poros desacreditassem as folhas
para nos pólens,
_____asas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meta aberta


precisamos mesmo
dormir com o despertador
enlaçado neuroticamente
por nossas próprias mãos imaginárias
fingindo que nada é real?

dê um passo
um gozo crasso

reticências

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

buraquinho


meu objeto de estudos
é a anarquitetura
da distorção espaço-tempo

abro caixas
e jogo-as pela janela
chovendo ontens
no jardim não podado

mas isso foi ontem

hoje já jogo as caixas
pela janela afim de,
por acidente
ou por afinco,
esperar ansioso
que o mundo
caia dentro delas

mas isso é hoje

amanhã jogo o mundo
pela janela e se a caixa
cair no ontem,
não podo o jardim
por mera cautela.
quero frutas nas bordas da caixa,
me projetar vegetal

mas isso será amanhã

a caixa foi é será
um rasgo espacial
e o mundo que cair ali
é um jardim
que podou
tanto as formas
quanto o tempo

mas isso,
janela

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

natural

me pediu uma intervenção
eu dou um carinho
me pediu uma opinião
eu contemplo

quando a gente sente o sol
não há raio que passa em vão