terça-feira, 1 de dezembro de 2009

pairar então

Marc Chagall, Enchantment Vesperal


tropecei dia desses
numa flor
manca

momento duro

ela se inclinou
em direção ao tempo

e ao tentar beber
a voracidade de um crepúsculo,
engasgou-se
com a ávida sensação
do horizonte de mundo todo

porém

quando se vive
com um sol que arde n'alma,
não há dor que não engendre raios
tampouco lágrimas que não adubem
terra
____em nosso
____________espectro

e esse sim,
sente o gosto afável
de flor que está
sempre prestes
a levitar.

pairemos,
pois.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

vontade dos astros

Eric Fischl, "The travel of romance: scene V", 1994


qualquer sombra é luz

desde que se saiba
que ela é o verbo
da tessitura dos astros
que cortam e atravessam
nosso corpo,
deixando ali plantada,
uma luz

jogando-se então no chão
com tudo o que lhes sombra.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

despedacem-no


meu coração é um espelho
poucos conseguem encará-lo

os que conseguem, sofrem a sós

é realmente duro olhar ali
e ver sua própria bomba sangüinária refletida
na de outrem

os lados se invertem,
sentimento sempre foi esquerdo
como pode agora ser direito?

quisera eu uma alma corajosa
encarasse sete anos de azar

talvez assim
meu mundo inteiro
fosse muito mais esquerdo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

olha o passarinho


já tentou fotografar
uma lágrima
que ainda não caiu?

ela não é liqüida

é puro afã
de rima que não
se sabe rima

por isso
se desafina

e fotogênica,
__________mata o passarinho.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

permanente


és perna
és permeável

esperas
esperma

ex-perma és feto





*poesinha (des)conjunta com carlos silva (avelino, luís)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

transacidental

onde o nada se volta pra si

evadir-se de sim
para chegar
ao ponto
que
é

não

tudo transa
enquanto nada sim

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

intensidade afetiva dos pés quando sinceros


inverta a lógica afetiva
da ordem mundana

ânus pro céu
e cabeça pro chão

pronto

agora todas as cabeças
são uma só:
o mundo

e pés aéreos
brincam de flutuar as nuvens
regendo a ordem imaginária
das chuvas

sim,
quando se brinca de chuva
não há corpo que não molhe a imaginação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Printscreen


Muito do pouco que sei sobre Nietszche veio de amigos, acho que o suficiente para tornar esta captura via printscreen um tanto curiosa (clique para ampliá-la):


Aqui vai um link interessante de um programa de radio daUFMG do curso de filosofia, por sinal uma bela iniciativa: http://www.fafich.ufmg.br/petfilosofia/logofonia/filosofia-e-sociedade/a-filosofia-da-religiao-de-nietzsche/



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por um novo paradigma

No caminho de terra
mora o morro
a safra marrom
de compaixão, fonte.

No caminho de homem
mora o seio materno,
tenro, doce,
de leite morno.

No meio do povo
a unha cava o lodo,
a poeira que levanta o novo.

Tem que acreditar,
deixar de lado o limo,
por um paradigma em que
Eu sinto,e tão logo nós coexistimos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sim, a jambolada é isso.


sabe a ressaca do que não se bebeu? isso acontece quando ao invés de beber, se traga e se é tragado. tragar o quê?

sim.

há alguns finais de semana que abrem aquele rasgo da distorção espaço-barra-tempo e o que era grama vira lama, mas o que é mais impressionante é que a grama que cresce depois, cresce da cor dos olhos de quem a pisou. sim, foi assim que a grama que não existia na acrópole da jambolada cresceu hoje, da cor de sete mil olhos que disseram embevecidos, que sem música, não há ar.

essa teoria é antiga, tem gente que pensa que a música só consegue se ecoar pois o ar permite tal façanha com as vibrações e reverberações sonoras abraçando toda aquela lenga lenga de composição química que há no ar, mas isso não passa de um postulado rigidamente estabelecido e pouco questionado e discutido. o que acontece de fato, é que quando o big bang fez seu grande BANG, o ar foi obrigado a existir saindo com pressa de dentro daquela entidade em potência que era o tal estampido do baque sonoro primordial. e desde então respiramos o ar que existe graças a esse primeiro som. ar e som, som e ar...

antes do ovo e da galinha, há a dialética. portanto, escutamos e respiramos. sacou?

saquê!

e essa é a única história de casamento feliz que eu conheço até hoje, o ar e o som, dois hermafroditas que transam com tudo, nada de monogamia, amor-livre antes de 68 e com muito 69.

por isso esse fim de semana todos respiraram uníssonos, e o que era música tragou cada corpo ali presente, nos tossindo com uma leveza extra sensitiva e lançando-nos de volta para as próximas segundas-feiras que virão. e nós continuamos aqui tentando tragar tudo isso, com uma tosse que ainda não chega nem a ser pigarro, mas se situa na vibração da corda vocal de um brônquio (sim, eles cantam também, por isso tossimos). uma tosse que ainda não se sente, só existe, sem pretensões de se tossir. e isso já é muito mais que o suficiente.

apague a luz, feche os olhos, respire fundo e segure. se vc esteve na jambolada, com certeza escutará a luz dessa grama cor de olhos crescendo por lá com toda sua tosse...

sim, a jambolada é isso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

São

O olho do furacão investe aos olhos de quem o vê,
ar com ar e velocidade, força.
centrifugação expansiva e contida,
etílico, sublima
no osso, assina
um lampejo de fúria, o desabafo.
os diques estremecerão, certamente.

O espirro do universo,
um simples grão,
aventurada escalada de uma legião,
no olho de quem vê este meu lindo nosso furacão.

sábado, 17 de outubro de 2009

absorção de luz ou água conforme a maré e as nuvens


sou uma esponja
de chapéu
tomando chuva

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

memórias


agora febril
com a cabeça tateando
chamas no ar

amanhã ressaca
de um dia
que não aconteceu

mais vale a inércia
de uma sinapse inacabada
que a memória
do não vivido.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

traço incidental


sabe quando...

em uma extremidade
de um fio
uma formiguinha plenitude
grávida de apetite
puxa para si
no outro extremo do fio
uma humanidade doente
grávida de fome?

então...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

sensativo

Yves Klein, "Salto no vazio" 1960

para bibi



acusaram-no de
desertor de si mesmo

mas antes de seu julgamento
evadiu-se vento

e tudo que era fato
invaginou-se tato

tudo
basta só
livre prender-se
em sensações.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

aero plano

René Magritte, "The Great Family" 1963


quanto menos se espera,
mais se gaivota

e a vida voo
de parábolas e paródias

uma sapiência
nada

ar
é água.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cada gota

Primeiro, a maior felicidade é a de estar triste.
Segundo, a de saber que o novo pode renascer em cada gota:
de chuva,
de lágrima,
de suor,
de vapor,
de cheiro.
A gota do próximo milisegundo, ou, antes deste, você mesmo.

E junto disso, o terceiro.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

meu ovo tântrico

Tarsila do Amaral, "O Ovo ou Urutu"


nunca esquecerei o dia em que botei meu ovo tântrico. a princípio, ele era o princípio, antes nada principiava potência, só havia possibilidades, e essas não eram lá tão impossíveis. o ovo trouxe o impossível e isso é o que importa.

a princípio ele era o princípio, e ficou ali envolto de liqüido amniótico espalhado pelo chão. meu corpo não esperava um ovo, mas ouvi de fonte genital segura que a origem era tântrica. a memória nos prega peças, o transe tântrico não me dava certeza de nada, só de tudo, por isso nada se lembrava, só se acoplava e isso já era o suficiente. nada como o movimento. como o nada em movimento. deglutir o nada para criar seu filho, o ovo.

e ele o tempo todo tantra, em partos tão sinceros que qualquer corpo parecia pouco, parecia parco, parvo. exalava intensidades para todos os lados, sem nenhum viés, acasalando-se com tudo para dialogar com nada. tantra é antes, tudo que tantra devém. o ovo tantra para o excesso ideal, aquele excesso tão procurado e nunca achado por sempre se perder no exagero.

tive que levá-lo até uma árvore próxima para que ela o chocasse, afinal vegetais sabem caminhar com o vento, e o ser humano se suicidou com ponteiros encravados nos pulsos. mas ao chegar lá ficou claro, chocá-lo seria ultrajante, a árvore argumentou tudo extaticamente: para o ovo, tudo de êxtase, nada de ênfase.

sem ênfase alguma, o ovo se tornou sua própria casca extasiando-se tantra para todos os lados, pois a princípio, ele era o princípio. e isso é o que importa.




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

tanta cor


as quatro estações
_____ao pousarem num corpo
se desdobram em pele

por isso
_____os poros são
flores

no calor,
_____pululam orvalho
com o pacto
_____das nuvens

na solidão
_____murcham os raios
da lua
_____dos olhos

lábios em flores,
_____transgridem o pólen
amarfanhando o ar
_____com lampejos
de asas
_____em gozo primal

quisera eu chegasse o dia
que ao invés de devir flores,
poros desacreditassem as folhas
para nos pólens,
_____asas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meta aberta


precisamos mesmo
dormir com o despertador
enlaçado neuroticamente
por nossas próprias mãos imaginárias
fingindo que nada é real?

dê um passo
um gozo crasso

reticências