terça-feira, 29 de dezembro de 2009

o prazer e o pacto nas chuvas


se um dia o mundo imaginar
que corpo é porta pra vida
lembre-o que tudo alucina
tudo vacila ao olhar pra cima
o céu nunca foi ponte nem chave
sempre foi verbo
e verbo não se conjuga com o olhar
e sim com toque simbiose
de poros em transe
por isso corpo transmuta pactos
o corpo nunca é
tampouco está

o corpo se pactua com tudo que resvala afeto

e o verbo céu
é total figura fundo
para o suor de nuvens
que transam tempestade

chova comigo
até que lampejo e gozo
sejam eletricidade de sons
e atravessem todas as vidas na cidade
alagando as ruas de qualquer estômago desatento
engendrando blecaute em olhares mancos

raiorgasmo pureza primal

corpos sempre pactuaram nuvens que transam chuva

sábado, 26 de dezembro de 2009

loucura, presente.

Hieronymus Bosch, Nau dos loucos 1490-1500

hoje viverei o presente
pois sei que
sem a loucura universal,
sou palha e fogo querendo
se encontrar

enquando sou louco
sou perfeito,
sou presente.

e o queimar-se é sempre futuro.
qualquer chama é futuro,
não existe presente
no ardor sempre mutante do fogo


abraço a loucura de todos os tempos
pois ela é o presente

é alma planetária em desvario
é chama a esperar eternamente seu próprio devir
é um aspirar-se fogo
nunca o sendo de fato
é o estar sempre em suspensão

ela é o decorrer eterno da queda profunda
no abismo da alma
cujo chão é mera vaidade
por isso se faz tão firme
rente ao espelho total

vaidoso chão imaginário
de alma sedutora e envolvente

alma louca que se fogo fosse
futuro seria
e futuro não existe nos jardins da loucura
mas é presente
num alucinado gozo incendiário.

na loucura
tudo é presente
tudo aguarda ser chama
e nunca a será
pois a certeza
da loucura
é a de que o futuro
morrerá


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

porvir saudade


uma folha,
em seu carinho com a chuva
homenageia o mundo
no reluzir embriagante
da gota d'orvalho

você,
com seu sorriso de música universal
exagera o mundo
na suavidade d'uma lágrima
condão da saudade
ainda não vivida.

saudoso futuro
latente presente
no desperdir-se.

gota:
lágrima orvalhada.

espero-te.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Encantado

Arnaldo Baptista*

sou
eterna
parafina
decantada
próxima
as
chamas
do
firmamento

*O site do Arnaldo não me informou o nome e o ano dessa lóki arte

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

pairar então

Marc Chagall, Enchantment Vesperal


tropecei dia desses
numa flor
manca

momento duro

ela se inclinou
em direção ao tempo

e ao tentar beber
a voracidade de um crepúsculo,
engasgou-se
com a ávida sensação
do horizonte de mundo todo

porém

quando se vive
com um sol que arde n'alma,
não há dor que não engendre raios
tampouco lágrimas que não adubem
terra
____em nosso
____________espectro

e esse sim,
sente o gosto afável
de flor que está
sempre prestes
a levitar.

pairemos,
pois.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

vontade dos astros

Eric Fischl, "The travel of romance: scene V", 1994


qualquer sombra é luz

desde que se saiba
que ela é o verbo
da tessitura dos astros
que cortam e atravessam
nosso corpo,
deixando ali plantada,
uma luz

jogando-se então no chão
com tudo o que lhes sombra.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

despedacem-no


meu coração é um espelho
poucos conseguem encará-lo

os que conseguem, sofrem a sós

é realmente duro olhar ali
e ver sua própria bomba sangüinária refletida
na de outrem

os lados se invertem,
sentimento sempre foi esquerdo
como pode agora ser direito?

quisera eu uma alma corajosa
encarasse sete anos de azar

talvez assim
meu mundo inteiro
fosse muito mais esquerdo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

olha o passarinho


já tentou fotografar
uma lágrima
que ainda não caiu?

ela não é liqüida

é puro afã
de rima que não
se sabe rima

por isso
se desafina

e fotogênica,
__________mata o passarinho.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

permanente


és perna
és permeável

esperas
esperma

ex-perma és feto





*poesinha (des)conjunta com carlos silva (avelino, luís)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

transacidental

onde o nada se volta pra si

evadir-se de sim
para chegar
ao ponto
que
é

não

tudo transa
enquanto nada sim

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

intensidade afetiva dos pés quando sinceros


inverta a lógica afetiva
da ordem mundana

ânus pro céu
e cabeça pro chão

pronto

agora todas as cabeças
são uma só:
o mundo

e pés aéreos
brincam de flutuar as nuvens
regendo a ordem imaginária
das chuvas

sim,
quando se brinca de chuva
não há corpo que não molhe a imaginação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Printscreen


Muito do pouco que sei sobre Nietszche veio de amigos, acho que o suficiente para tornar esta captura via printscreen um tanto curiosa (clique para ampliá-la):


Aqui vai um link interessante de um programa de radio daUFMG do curso de filosofia, por sinal uma bela iniciativa: http://www.fafich.ufmg.br/petfilosofia/logofonia/filosofia-e-sociedade/a-filosofia-da-religiao-de-nietzsche/



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Por um novo paradigma

No caminho de terra
mora o morro
a safra marrom
de compaixão, fonte.

No caminho de homem
mora o seio materno,
tenro, doce,
de leite morno.

No meio do povo
a unha cava o lodo,
a poeira que levanta o novo.

Tem que acreditar,
deixar de lado o limo,
por um paradigma em que
Eu sinto,e tão logo nós coexistimos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sim, a jambolada é isso.


sabe a ressaca do que não se bebeu? isso acontece quando ao invés de beber, se traga e se é tragado. tragar o quê?

sim.

há alguns finais de semana que abrem aquele rasgo da distorção espaço-barra-tempo e o que era grama vira lama, mas o que é mais impressionante é que a grama que cresce depois, cresce da cor dos olhos de quem a pisou. sim, foi assim que a grama que não existia na acrópole da jambolada cresceu hoje, da cor de sete mil olhos que disseram embevecidos, que sem música, não há ar.

essa teoria é antiga, tem gente que pensa que a música só consegue se ecoar pois o ar permite tal façanha com as vibrações e reverberações sonoras abraçando toda aquela lenga lenga de composição química que há no ar, mas isso não passa de um postulado rigidamente estabelecido e pouco questionado e discutido. o que acontece de fato, é que quando o big bang fez seu grande BANG, o ar foi obrigado a existir saindo com pressa de dentro daquela entidade em potência que era o tal estampido do baque sonoro primordial. e desde então respiramos o ar que existe graças a esse primeiro som. ar e som, som e ar...

antes do ovo e da galinha, há a dialética. portanto, escutamos e respiramos. sacou?

saquê!

e essa é a única história de casamento feliz que eu conheço até hoje, o ar e o som, dois hermafroditas que transam com tudo, nada de monogamia, amor-livre antes de 68 e com muito 69.

por isso esse fim de semana todos respiraram uníssonos, e o que era música tragou cada corpo ali presente, nos tossindo com uma leveza extra sensitiva e lançando-nos de volta para as próximas segundas-feiras que virão. e nós continuamos aqui tentando tragar tudo isso, com uma tosse que ainda não chega nem a ser pigarro, mas se situa na vibração da corda vocal de um brônquio (sim, eles cantam também, por isso tossimos). uma tosse que ainda não se sente, só existe, sem pretensões de se tossir. e isso já é muito mais que o suficiente.

apague a luz, feche os olhos, respire fundo e segure. se vc esteve na jambolada, com certeza escutará a luz dessa grama cor de olhos crescendo por lá com toda sua tosse...

sim, a jambolada é isso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

São

O olho do furacão investe aos olhos de quem o vê,
ar com ar e velocidade, força.
centrifugação expansiva e contida,
etílico, sublima
no osso, assina
um lampejo de fúria, o desabafo.
os diques estremecerão, certamente.

O espirro do universo,
um simples grão,
aventurada escalada de uma legião,
no olho de quem vê este meu lindo nosso furacão.

sábado, 17 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

memórias


agora febril
com a cabeça tateando
chamas no ar

amanhã ressaca
de um dia
que não aconteceu

mais vale a inércia
de uma sinapse inacabada
que a memória
do não vivido.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

traço incidental


sabe quando...

em uma extremidade
de um fio
uma formiguinha plenitude
grávida de apetite
puxa para si
no outro extremo do fio
uma humanidade doente
grávida de fome?

então...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

sensativo

Yves Klein, "Salto no vazio" 1960

para bibi



acusaram-no de
desertor de si mesmo

mas antes de seu julgamento
evadiu-se vento

e tudo que era fato
invaginou-se tato

tudo
basta só
livre prender-se
em sensações.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

aero plano

René Magritte, "The Great Family" 1963


quanto menos se espera,
mais se gaivota

e a vida voo
de parábolas e paródias

uma sapiência
nada

ar
é água.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cada gota

Primeiro, a maior felicidade é a de estar triste.
Segundo, a de saber que o novo pode renascer em cada gota:
de chuva,
de lágrima,
de suor,
de vapor,
de cheiro.
A gota do próximo milisegundo, ou, antes deste, você mesmo.

E junto disso, o terceiro.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

meu ovo tântrico

Tarsila do Amaral, "O Ovo ou Urutu"


nunca esquecerei o dia em que botei meu ovo tântrico. a princípio, ele era o princípio, antes nada principiava potência, só havia possibilidades, e essas não eram lá tão impossíveis. o ovo trouxe o impossível e isso é o que importa.

a princípio ele era o princípio, e ficou ali envolto de liqüido amniótico espalhado pelo chão. meu corpo não esperava um ovo, mas ouvi de fonte genital segura que a origem era tântrica. a memória nos prega peças, o transe tântrico não me dava certeza de nada, só de tudo, por isso nada se lembrava, só se acoplava e isso já era o suficiente. nada como o movimento. como o nada em movimento. deglutir o nada para criar seu filho, o ovo.

e ele o tempo todo tantra, em partos tão sinceros que qualquer corpo parecia pouco, parecia parco, parvo. exalava intensidades para todos os lados, sem nenhum viés, acasalando-se com tudo para dialogar com nada. tantra é antes, tudo que tantra devém. o ovo tantra para o excesso ideal, aquele excesso tão procurado e nunca achado por sempre se perder no exagero.

tive que levá-lo até uma árvore próxima para que ela o chocasse, afinal vegetais sabem caminhar com o vento, e o ser humano se suicidou com ponteiros encravados nos pulsos. mas ao chegar lá ficou claro, chocá-lo seria ultrajante, a árvore argumentou tudo extaticamente: para o ovo, tudo de êxtase, nada de ênfase.

sem ênfase alguma, o ovo se tornou sua própria casca extasiando-se tantra para todos os lados, pois a princípio, ele era o princípio. e isso é o que importa.




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

tanta cor


as quatro estações
_____ao pousarem num corpo
se desdobram em pele

por isso
_____os poros são
flores

no calor,
_____pululam orvalho
com o pacto
_____das nuvens

na solidão
_____murcham os raios
da lua
_____dos olhos

lábios em flores,
_____transgridem o pólen
amarfanhando o ar
_____com lampejos
de asas
_____em gozo primal

quisera eu chegasse o dia
que ao invés de devir flores,
poros desacreditassem as folhas
para nos pólens,
_____asas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meta aberta


precisamos mesmo
dormir com o despertador
enlaçado neuroticamente
por nossas próprias mãos imaginárias
fingindo que nada é real?

dê um passo
um gozo crasso

reticências

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

buraquinho


meu objeto de estudos
é a anarquitetura
da distorção espaço-tempo

abro caixas
e jogo-as pela janela
chovendo ontens
no jardim não podado

mas isso foi ontem

hoje já jogo as caixas
pela janela afim de,
por acidente
ou por afinco,
esperar ansioso
que o mundo
caia dentro delas

mas isso é hoje

amanhã jogo o mundo
pela janela e se a caixa
cair no ontem,
não podo o jardim
por mera cautela.
quero frutas nas bordas da caixa,
me projetar vegetal

mas isso será amanhã

a caixa foi é será
um rasgo espacial
e o mundo que cair ali
é um jardim
que podou
tanto as formas
quanto o tempo

mas isso,
janela

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

natural

me pediu uma intervenção
eu dou um carinho
me pediu uma opinião
eu contemplo

quando a gente sente o sol
não há raio que passa em vão




sexta-feira, 28 de agosto de 2009


SUBLIME
essa palavra que

sublinha a

ALMA
sublime

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

poros feitos de Barros


domingo inteiro
escutando os poros
da pele
conversarem entre si

uns suavam
achando-se no privilégio
de nascentes

outros tinham aspirações
à pedra,
ou no máximo a musgo
desses de úmida pretensão

na nuca,
uns gorjeavam cores
tanto de relva que grita
quanto de lama em silêncio

poros peitorais
têm mania de árvore
e só respiram sol,
pois, à noite,
acasalam-se com o luar
num belo ritual
de ventos e pêlos em folha

cada um
com suas meditações,
desvairios e gemidos

de repente
todos se calaram
e ouviram um solitário
poro de dedo de pé:

- ser em qualquer forma,
desde que vegetais
queiram nos ser.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

pescaria e mergulho


há olhares que de acordo com o rio
deixam-se levar pela mata ciliar
e esquecem de se banhar

não que a mata seja ruim,
ela ainda cheira verde
espera signos e transpira sol

mas em um rio
os olhos ganham significado
de performance

perfeita forma da água
e o olhar se mergulha
criando encanto de luz
ao dialogar com sombra

os olhos deviam ser água mesmo
pois ao derramarem sensações
em um banquete de cautela
adquirem espaço forma de outrem
e o silêncio flui

os olhares tinham que ser o outro

mas que graça teria
olhar e não ter a delicadeza
do desvendar e se aventurar
em um rio que se resguarda?

isso é eterno

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

luz que reverbera

para syd barrett
há que se dedicar
dias de solidão
para fotografar
o enlouquecer-se

uma fusão dos suados vincos da pele
embevecidos de sol

com

feixes solares de fim de tarde na janela
e a poeira que os flutua

a pele agradece em frenesi

o banho é um pecado mortal

dias assim devem ser
regados à paraísos artificiais

cama, chão, lençol
e as paredes

e eu rolando nu pela casa
até flertar com o espelho
e em um sincero monólogo ao pé do ouvido
tento convencer meu reflexo

ele tinha que se entregar a mim
doar-se
dar-se
pra loucura ser sublime

uma transa refletida
transmissão dual

mas com o monólogo
o espelho embaçou
e vi meu reflexo escorrendo
ralo abaixo

lindo isso de se olhar no espelho
e não ter mais reflexo

tive que
abrir a porta de casa
e ir correndo abraçar alguém

sentir-me pela pele de outro

eu

sexta-feira, 31 de julho de 2009

caçador de estrelas do mar no ar


queria passar a noite escrevendo
mas viu que
ela é um desfile do pulsar dos tempos
na palma da mão

então se tornou
um garboso dândi a desfilar
tentando se acoplar com o lunar

desistiu de escrever
e começou a nadar
rumo a esse lunar

suas intensas braçadas
só eram intensidades
_________________em intensividades

suas intensas brasas
só eram fumaças
_____________em incenso atividades

non
sensitivo

e sempre
atra (ca)
ativo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Conversando com Caeiro


sobre o tempo
é importante pensar o seguinte:

além dele não existir
e não passar de um
ente do estranhamento
para consigo mesmo

a eternidade não passa de um momento

e no fim de tudo,
um acontecimento só existe
pois ficou estancado na prisão do tempo

e como não confio em prisões
fico com o eterno
fico com o momento.

sábado, 18 de julho de 2009

Tantra cor


em um dia de parque como esse,
a lua cheia deixa o tesão aparecer
antes das mãos dadas.

vamos caminhar genitalmente dados.
olhar pra realidade e gozar na cara dela
nunca se sabe quem gozará por último,
por isso
tantra tantra tantra

tenta.

tínhamos que ter só um buraco,
mas temos vários
vamos usá-los

em terra de órgãos,
estômago goza bile,
rim fuma pedra,
coração cheira seiva
e quem tem sangue
esquizo é.

sangre.

me ligue.

domingo, 12 de julho de 2009

reflexão


sonhar estar com olheiras
é desenhá-las no espelho
antes do reflexo

segunda-feira, 6 de julho de 2009

o universo


no quarto de dormir
procurando por sinestesias
achei uma forma de tocar sensibilidades

comecei a dançar
dançar com o ar

pra dar um contraste,
jogava minhas cuecas
para o alto

o ar agradecia
resvalando minha pele
com pedaços de vento

vento
o que é vento?
acho que é
vontade do ar de fazer amor

dançamos então na horizontal
eu e o ar fazendo amor
aumentei o Coltrane que tocava
e virou orgia
o ar parecia não aguentar mais de tesão
todo aquele sax saltitando sexo no ar

a ventania começou a ficar forte
minhas cuecas voavam pela janela
eu dançava alucinado
amor supremo

repentinamente o ar já era sax
e o sax, sexo
eu apalpava o som
trocando carícias sinestésicas
com o vento em espasmo

gozamos juntos
foi lindo

sábado, 27 de junho de 2009

infinito


passou a vida
tentando temperar cores,
hoje, só usa limão,
o ácido as exalta.

buscou hedonistas
no asfalto, no mato, no quarto,
sempre respondiam:

- converse com a pele, hable con ella...

seguiu o conselho,
e descobriu
uma pele prolixa

- cale-se!

ela calou,
mas aí seu pau
em protesto,
ficou duro pra sempre.

concluiu que pele
não se deve reprimir,
há que se ter equilíbrio.

deixou-a falar,
agora são amigos
a pele e o pau

hoje,
ao abraçar Dionísio,
escuta dele:

- noites há que serem
sincopadas
em ritmo de pele.


somou então:
poros (também conhecidos como bocas)
limão
cores
tequila
lubrificação vaginal

e o resultado foi 8
deitado.

terça-feira, 23 de junho de 2009

droga


aquela coceira na cabeça
não passava.


desconfiei que fosse um piolho.

dia desses o encontrei
coloquei-o em minha mão
e falei:

espera o sangue de depois do almoço,
comerei duas garfadas a mais por você brother.


devolvi-o a sua residência
na região da nuca,
próxima a orelha esquerda.

depois do almoço
senti uma pontada naquele local.

era o piolho

chupou tanto
que caiu na corrente sanguinea,
deu umas boas gargalhadas com isso
parecia tobogã.

e eu me coçando todo

por dentro

até que encontrou nova moradia
agora vive em meu único rim
e ao invés de tomar sangue,
fuma pedra.

e eu aqui,

mijando fumaça.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

estética


na estética poética
não há ética

ora, pois

ética, esticada,
é estética

hermenêutica da ética
é hermética.

toda poesia,
antitética.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

parto


arranquei os pés
afim de enxergar com as mãos
meu intestino se soltou
e não tenho cotonetes
meu par de botas não serve mais
engordei
toda aquela barba
e eu sem cueca
fiquei embaraçado
tive que raspar, na zero
assoei e não saiu nada
estava mesmo careca.

pronto, agora só tenho um orifício
meu umbigo, uma cloaca

o universo me penetrou
gozei


pari eu próprio
tudo não passava de um corpo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pesadelo unilateral, sonhos coletivos.

Um verso um momento,
a história de um movimento.

Espaço democrático,
que nome, satírico riso.
Aqui, não há.

Os extremos se enfrentam e se revelam
flor de cá bomba de lá,
uma pedra sozinha não faz verão,
mas para eles é tempestade,
É tempo de escuridão.

Os raios do sol não aceitam a fumaça,
driblam-na para encontrar meus olhos.
Essa fumaça e o sol, duas naturezas diferentes, não se dão,
Nada se pode ver luz em um cinza tão denso e sórdido.

Essa dor latejante e vermelha vem da borracha,
O corpo sentiu, caiu no asfalto de petróleo.

E o gás me dá mais sede.
Quero beber água e hidratar.
Para turgir o corpo e vencer a constricção
A opressão.

As lágrimas ardentes que espelham o sorriso cínico,
Misturam-se com as ardentes lágrimas de amor.
Baixe o seu escudo e toma esta rosa seu homem.

De um lado a liberdade, do outro também?
De um lado a força do outro também.

Correr as cegas esperando o próximo rojão,
esperando a bala e a pimenta na mão,
confuso só lhes restam o espaço, e as pernas.

E o que nos resta somos nós mesmos.

Viver o calor do fogo e passar a luz.
E os sonhos virão verdadeiros.
Verdadeira liberdade.
Unidade pela união.

São batalhas de todos os dias.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

sobre sinceridade


abrir o peito com faca de pão
cega
e sentir a dor da faca
com o tórax amolado.

do peito já aberto
extirpar o coração pela aorta
e degluti-lo
em uma só mordida.

agora a linguagem é pulsante
e a verdade,
que nunca existiu,
que nunca passou de uma invenção,
existe.

afaga o que era difuso
difusa o que era afago.

sente-se uma eloquência muda
percebe-se plenitude e leveza
na confusão

e tudo se explode
pra dentro.

enquanto isso,
o vento sopra sal
em orelhas doces.


sinceramente.

sábado, 6 de junho de 2009

faca


faço o que quero
muito mais que
eu quero que eu faça.

sábado, 30 de maio de 2009

desejo vegetal


em um belo dia, um vegetal, ao ter uma alucinação, conseguiu materializa-la.


não se sabe se por força dos acordes da terra ou por vontade de pedra bater asas.

mas materializou-a.

há a possibilidade remota de ter sido o ar, que quando sopra, é desejo multicromático.

desejo não por falta de algo,
mas desejo-intensividade
que se agencia em cada poro.

intenso campo imanente.

mas materializou-a.

e era eu
em forma de musgo.

corpo sem órgãos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tensa fioequação númeropoética

2008 = (2009 + 2007) / 2 amigos

Conversa de banco de concreto

O Sol nasce e logos chega a Lua,
Por incidência direta ou refletida,
A luz sempre no céu.

Nos olhos dos homens e dos bichos,
Nas veias das plantas,
No ar.

E a vida assim, poesia do universo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

ABISMO

sobre como surgiram os manicômios


louco é apenas o cara que resolveu abrir a braguilha do mundo

só que o mundo não usava cuecas

aí ninguém gostou,
o pinto do mundo o castrou

e nos olhos da humanidade,
gozou.

Quem cita, excita(do).

Porque ler poesia é criar outra,
outras dores.
No meu imaginário esta outra se cria com mais amores,
Seja parte ou inteiro,
o que me alimenta a vida é ração feita deste erro,
erro diário de morrer precocemente.

O erro flutua, perpassa, enlaça o destino e nos dá novamente a alegria de estar vivo.

Errar é humano, e divino:

"nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
"

Paulo Leminski

domingo, 17 de maio de 2009

linguagem


queria respirar palavras
mas engasguei.


isso não é uma poesia.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

céu vagem


sabe,
quando se perde a cabeça
deve-se raspá-la.

cabelos entopem os ralos
e é pra lá que as cabeças perdidas vão
ralo abaixo
esgoto acima.

outro dia vi uma cabeça
boiando no esgoto ao ar livre.
dela, saia uma fumaça

vermelha
estava escrito na testa:
cheque especial, limite estourado.

nem deu tempo de pensar nos juros prestações
a tv plana digital home theater folia estava alta
high definition
e a cabeça já havia se perdido ralo abaixo
high condition

só ficou a fumaça, fedendo.

cabeças não são feitas de concreto
são permeáveis

- cérebro de shampoo? -
cabeças são feitas de avencas
e ao invés de se perderem ralo abaixo
deveriam se perder canto de cigarra acima
e sapear um coacho.

no meio de tanto concreto
é difícil ser abstrato.


- Diógenes Devir-vegetal

segunda-feira, 11 de maio de 2009

cidade e jardim


lembra de quando fomos ao cinema
e o filme não terminou?

o fato é que rasgamos o roteiro no meio


a minha metade, continuei escrevendo
com sangue e parafuso,
na cabeça

sua metade é escrita
à lagrimas e insônia,
em um coração que não dorme

nas filmagens
virei ator
lá estava eu desempenhando meu papel
lá estava você fazendo origami

de sua delicadeza,
virei tsuru
e voei

de meu vôo,
aprendi que só confio
em quem faz origamis

o resto todo é só papel

meu roteiro continua sendo escrito
letras voadoras
me flutuam para o oeste

já o seu, é uma bela e contínua dobradura
te desdobra com fé para o leste

mas ambos,
para cima

nos elevamos juntos
em caminhos opostos.

domingo, 10 de maio de 2009


poeta é uma profissão vagabunda
não há vagas
tampouco bundas

segunda-feira, 4 de maio de 2009

há braço


quer ouvir minha voz?
chegue perto de minha nuca
sinta meu cheiro
o torpor de um abraço

abraçados,
inspire
expire
arrepio
inspiro
expiro
você me ouve
pelos pêlos
enrigecidos

- quando a carne quer se mostrar,
sai de dentro de nós
pelos pêlos, que se enrigecem
como mera defesa da voracidade
ensaiando uma ode à suavidade -

pela pele
nossa sinceridade pura

- a pele nunca mente -

um gemido de poros
e olhos fechados
abraço gana
respiração minha
coração seu
compasso nosso
em uníssono.

um abraço:
o universo é assim
todo o resto é mentira.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

o diabo do currículo


o cara tava dando aula
"como desatar o nó do pensamento nietzscheano"

um aluno atirou um paralelepípedo na testa do professor
o sangue escorreu

outra aluna foi correndo coletar a amostra

com um conta gotas,
pingou duas gotas do sangue em solução aquosa
já na ponta da língua pronunciou o que já era claro:
"adstringente"

o resto da sala nem percebeu
em um ato antropofágico
já haviam deglutido boa parte do professor

reação não
educa ação

macaco bong


hoje entrei em uma música
e não mais saí
acho que gozei
sinapses trepam no abstrato.

vamos dar mais uma.



sábado, 25 de abril de 2009

amor liquido


vontade maluca,
você me cativa por entre as pernas
até a nuca.

sua.

e eu não sei se foi
entre quatro paredes
ou três.

o triângulo amoroso
me confundiu
eu, você, aqueles fetiches.

me imergi no triângulo
úmido e quente
ponto generoso
e o lençol com nossos líquidos espalhados

liqui dando tudo
de lado, mudo.

sou líquido no lençol.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

copyritghts


ontem vi um desfile
ovos de páscoa amarelos
andando pomposos
atrás da banda do sargento pimenta.

mas coelho não põe ovo, pô
percebi então que os ovos são jesus
são a ressurreição
ressurreição da moeda, em crise.

e o coelhinho é deus
e nós temos o dinheiro - ou teríamos que ter -
deus de pele branquinha
e olhos vermelhos
grande business man.

jesus ressucita nos ovos
nós os compramos
de deus, o coelhinho.
e ficamos de olhos vermelhos
alucinados.

agora estão atrás do revolver
tomorrow never knows
vai que os ovos não ressucitam,
aí não teremos jesus pra comprar
vão ter que ressucitar john lennon
beatles são mais famosos que os ovos
e michael jackson é o coelhinho,
come besouros.

terça-feira, 14 de abril de 2009

escolhas

Um excerto de Kant ou o canal Bandeirantes:

lógicas distantes para almas inquietantes.



(tic tac tic tac

Homem brasil

Eu?

Se coletiviza se se internaliza

As divisas?
Nem mesmo no céu.

Aaah.. nosso bosque teria mais flores!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

apagamento

O coração morreu,
mas o sangue ainda é seu.

O musculo bateu
mas você não respondeu.

Quem é você?
Quem sou eu?

Galgar ao lugar das idéias apaixonadas, requer que por um instante, eterno, deixemos a inércia deste corpo cheio de ilusões estacionada.

Para viver e morrer melhor.

E fazer nascer amor. Fazer amor.

E parados inertes seguem os pensamentos, como ondas de algum mar, que movimentando se repousam no tecido do planeta.

O ritmo vem do passo, quem marca é a melodia.

domingo, 12 de abril de 2009

combustão


meu coração morreu
a autópsia não mentiu:
atentado violento ao pudor

fiquei puto.
é certo que lá estava ele
pelado na sístole
exalando libido na diástole

mas ele não passava de um ventríloco
um boneco controlado
havia alguém por trás o tempo todo
ele não estava assim à toa.

matar alguém assim,
exige cremação.

é claro que esse coração,
gostaria de ver seu sangue
escorrendo pelos olhos
das pessoas que contemplam a urna
esparramando cinzas
em cima de um cinzeiro
de um bom tabagista

(o pulmão é o próximo).

queimem essa bomba de sangue
deixe-a em cinzas,
mas coloque ao mínimo
uma andorinha no lugar
assobiando coração vagabundo
do caetano
com a voz da gal.

perdi o coração,
posso até ficar sem sangue,
mas ainda quero ritmo e melodia.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ácido


cala a boca pensamento!
plutft!
momento?
não, fomento.

a pupila riu,
não viu.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Elogio de duas pernas ao mundo do trabalho S/A.


tiro no pensamento,
vapor de sangue
saindo por entre
os giros e sulcos cerebrais.
pronto-socorro!

mentira!
era um deja-vu.

acordei bem.

no leito do hospital,
a meu lado,
na mesa de dissecação,
uma máquina de custura
e um guarda-chuva.

na sala de espera
toda a amplitude
de meu intestino
agora, multi-colorido

pendurado pelo ambiente
em uma instalação
de Oiticica.

os médicos
tropicalizados
tropeçavam
se enrolavam
e arrebentavam o intestino.

fezes pra todos o lados
como confete no carnaval.
diversão infantil
eles riam, sinceros, inocentes.

aguardavam em febre
os doentes
que atiravam halopáticos
lá do 7º andar
uma profissão séria

de carga intelectual
que exige formação.
não é pra qualquer um
atirar halopatia na sarjeta.


afinal,
sejamos surrealistas,
nada é real
só o banal.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

interstelar overdrive


não há como explicar
ou mostrar
tinha que estar lá

prazer assim,
só vênus.

sexta-feira, 3 de abril de 2009


Positivismo:
nada mais negativo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

é Pois é;
coisa louca essa brincadeira das palavras,
Louca Transmissão,
comunicar e FALAR, flalar
flale;

coisa de blog:
um terreno virtual.
E antes que eu(nós) vire(mos) motivo de mote:
Estes poemas são loteados.

Mas e a interface?
Ai, ferrou-se: enferrou
Quero escrever de outra maneira: uma maneira pscicodélica!

Olho de frente e....
Singelo botão cenoura, envie este pronunciado: (clique!)

domingo, 15 de março de 2009

deus


melhor estar pelado
quando privada
a sós defeca
enfezado de fé
as fezes são
minhas orações
oro pelo ânus
antes orações
no esgoto
que na igreja
nem a mirra do padre
tiraria o cheiro
de minhas orações
ali no chão
em frente a cruz
antes descarga
que descarrego

acho que
sou deus
faço cocô
pelado

sábado, 14 de março de 2009

valores


verdade
verde de idade
amarga ou mofada?
amálgama fadada.

é tudo
mente
ira.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Livre arbítrio

Começo a escrever isso aqui por causa um e-mail que recebi com a seguinte frase que seria do Dr. Drauzio Varella:

" No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres que na cura do Mal de Ahlzeimer. Daqui alguns anos teremos velhas de seios grandes e homens de pinto duro, mas que não lembrarão pra que servem"

Nessa linha de pensamento podemos constatar que outro problema do mundo atual é que se gasta mais com a cura de doenças do que com prevenção das mesmas. Quer dizer se tivéssemos saneamento básico e moradia para todos nós teríamos menos doenças (em número e variedade de) e assim os gastos em saúde seria menor. Não haveria de se investir milhões em remédios e a quantidade de hospitais e serviços médicos seriam acessíveis a todos. Com saúde gratuita os gastos familiares seriam conduzidos para outros fins como alimentação. Com boa alimentação cada vez menos se precisa de serviço de saúde. E com menos gastos em saúde melhos se investe em outras áreas. Essa mesma lógica vai para educação, moradia, entre outros direitos inalienáveis garantidos a todos nós.

Dá pra acreditar num sistema composto de pessoas que querem deixar as pessoas fracas e burras? Só nos resta pensar, por um outro sentido, que quem nos governa são pessoas fracas e burras. Mas o livre arbítrio existe e todos nós OPTAMOS por viver nesse sistema de burrices e fraquezas. A conclusão disso é que, de uma maneira geral, o que está por trás de todas as nossas relações e tudo que se relaciona com a civilização mundial são valores fracos e burros. Não há lógica mais ilógica que essa. Isso nos faz pensar se realmente existe livre-arbítrio. Se cada um de nós fizéssemos melhor uso desse livre arbítrio que carregamos com certeza viveríamos num lugar mais tranquilo. Tão bom seria que até engenharia seria prazeroso.

terça-feira, 10 de março de 2009

inércia


inércia:
o mundo parou
e eu voei

ou vice-versa


*já havia publicado essa naquele velho zine do sarau da psico...

quinta-feira, 5 de março de 2009

comer


é carnaval
aval da carne
minha sua
nós
duro molhada
cima embaixo
dentro fora
frente atrás
traz pra nós
aquela paz
jesus, é virgem
não sabia

gozar demais.

quarta-feira, 4 de março de 2009

música


hoje tive uma visão:
teu sorriso
fora convidado por um pássaro
a chover na relva
num sem fim campo verde,
um povoado de esparsas flores.

chuva e raios de sol
orvalhando flores ultra-violetas
fazendo do arco-íris,
uma ponte até meus olhos.
sete cores dilatadas
pela íris
lapidaram meu cristalino
convergindo em imagens estímulo.

resta-me contemplar teu sublime sorriso:
horizontalmente,
a chuva cai sobre mim.
não por estar deitado,
mas sim descansado, pleno.

um pássaro beberica da poça que se formara em meus olhos.
bem-te-vi.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sapo


um sapo carregado de imagens inconscientes me atacou.
do susto momentâneo
fico intrigado
ele se impõe, sou desconhecido
não sou dessa sua úmida terra
quando de fato deveria ser.

sapos são envoltos de uma aura quase mística, onírica,
pujante sobremaneira de um negro azul
mas de alma verde
e olhar impávido
quase que inquiridor

com um simples salto, cheio de si
esboçando um singelo desdém,
se distancia
deixando pro ser urbano
todo o extenuante conflito:
- aqui ficarei, tu voltarás a viver as velhas mentiras, constructos de velhas consciências. antinatureza mesmo.

e volto eu com a matrícula na testa,
já pesada, entortando a coluna
2052307