quarta-feira, 16 de março de 2011

bolinha de papel


pegou um papel

cuspiu o fundo da alma ali
mobilizando com força que contorce suspirante
todo a orla corporal


é,
corpo é coisa oceânica demais
tilinta tanto silêncio que alguns sons das profundezas
chegam a dançar vibrantes na janela,
sabe como é,
não há controle nas águas do mar


mas
depois do cuspe
amassou o papel assim, despretencioso,
como quem dança pelado
no escuro solitário da sala vazia
(quem não ritualiza, não se tateia de verdade no pulsar das veias,
só se engana, ou coisa pior)


passou infindáveis minutos, quase póstumos,
contemplando tal objeto de experimentação poética


mas acabou
jogando-o pela janela


a arte é assim,
é perene, dura enquanto durar,
melhor alçar voo do último andar do prédio,

respirar a queda, uma ascensão às avessas

mas e aí?
chegará o dia
em que o escarro sairá do papel?

Um comentário:

George Nunes Bueno disse...

Genial! Parabéns pelo Blog!!!

Aquele abraço!!!

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